EP 9 | O que é Literatura de Cordel?

Olá, bem-vindo ao Fala, Gringo. Eu sou o Leni e criei esse podcast para ajudar você, estudante de português intermediário, a melhorar a compreensão da língua e conhecer melhor a cultura e sociedade brasileira. Você pode acompanhar este podcast com uma transcrição completa e gratuita. Acesse o link na descrição do episódio ou através do instagram: @portugues.com.leni.


Fala Gringo, Fala Gringa! Eu começo o episódio de hoje desejando que você tenha um feliz ano novo. Que em 2020 você possa melhorar ainda mais o seu português, sinta-se ainda mais seguro para falar o idioma e que você esteja bem de modo geral, especialmente com muita saúde e disposição, que o resto dá para correr atrás, não é mesmo?

Eu, Leni, também espero que seja um ano muito bom para o Fala Gringo, que o podcast continue crescendo e ajudando pessoas do mundo todo a progredirem no aprendizado, como a Marianne, que me mandou essa mensagem:

Obrigada pelo podcast Leni. Sou do Canadá e moro em Londres, Inglaterra. Estou aqui no Brasil para passar o verão com o meu namorado. Eu também gosto de descobrir coisas novas sobre a cultura brasileira enquanto aprendo. Você está ajudando a avançar meu português para um nível muito mais alto, ótimo trabalho!

O Fala Gringo também recebeu uma avaliação muito legal no iTunes, que diz assim:

“Amo absolutamente este podcast. Provavelmente já experimentei todos os podcasts em português, e este é de longe o melhor. Os outros estão muito focados nos aspectos técnicos da linguagem – as regras gramaticais e as construções verbais. Sim, isso também é importante, mas não é assim que os humanos aprendem a língua. Essa é a maneira mais natural, autêntica e agradável – e o melhor de tudo, é como uma conversa amigável muito interessante sobre a cultura do Brasil. 100% 🙂 “

Eu não sei quem escreveu esse review, mas muito obrigado pelas palavras. Se você quer ajudar o Fala Gringo a ir mais longe em 2020, você também pode deixar a sua avaliação no iTunes para que outras pessoas do seu país descubram o podcast mais facilmente. Se você ainda não assinou o podcast na plataforma que está usando, não deixe de fazê-lo, assim você fica sabendo sempre que um novo episódio for publicado.

Por aqui a gente continua a nossa saga de descoberta desse Brasil além dos clichês. Desse Brasil cheio de peculiaridades que eu adoro falar aqui pra vocês. 

O tema do episódio de hoje é literatura, mas não a literatura clássica brasileira. Essa eu falarei futuramente em outro programa, com certeza, até porque tem muita coisa legal para conhecer, muitos autores e obras que vocês precisam descobrir e que podem ajudar você a entender melhor a nossa sociedade. Mas, aproveitando que vocês têm me pedido para produzir mais conteúdos sobre o Nordeste, hoje nós vamos conhecer um pouco do universo da Literatura de Cordel. Eu fiz uma pesquisa lá no meu instagram e tem muita gente que não tem a mínima ideia do que é isso.

Se você um dia visitar o Nordeste do Brasil e ter a oportunidade de passear por uma feira de produtos artesanais e locais, é muito provável que além de doces, comidas típicas, artesanato em madeira, couro e palha, você  também encontre em alguma lojinha, um conjunto de livrinhos coloridos, com ilustrações rústicas nas capas e histórias que despertam a curiosidade, como “Futebol No Inferno”, “A moça que virou cobra” e “O cavalo que defecava dinheiro”.

Essa é a Literatura de Cordel, uma manifestação literária popular, que traz histórias escritas na forma de versos e rimas, como uma poesia, e que é muito conhecida no Nordeste Brasileiro. 

Esse modelo de literatura começou há muito tempo alguns países da Europa como França, Espanha e Itália, mas só ficou popular mesmo durante o tempo do Renascimento, entre os séculos XV e XVII. Foi nesse período que o pessoal começou a imprimir e vender os relatos dos trovadores em pequenos folhetos. Os trovadores eram como poetas de rua, que interpretavam suas poesias acompanhadas de algum instrumento. 

Quem trouxe essa tradição para o Brasil foram os portugueses, durante o período da colonização. Aqui, a Literatura de Cordel fez sucesso durante muito tempo, em especial em alguns estados do Nordeste, como Bahia, Paraíba, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. Por isso, em muitos cordéis é possível observar que o vocabulário dos poemas traz muitas referências de dialetos nordestinos. Palavras que são mais usadas nessa região do país, porque naturalmente, a maioria dos cordelistas – os escritores de cordel – são do Nordeste e usam essa literatura para fortalecer a identidade regional. 

O nome Cordel é chamado desse jeito por causa da forma como esses folhetos eram expostos para a venda em Portugal: pendurados em cordas ou barbantes. O nome pegou no Brasil, Cordel, mas a forma de vender os produtos, pendurados em barbantes, não necessariamente. Às vezes eles apenas estão empilhados um em cima do outro.

Se você tá se perguntando o que é que essas histórias tinham de especial, por que faziam tanto sucesso, e por que eu decidi falar desse assunto, eu explico:

O primeiro ponto é considerar que no Nordeste a taxa de analfabetismo era muito grande, ou seja, a quantidade de pessoas que não sabiam ler. O cordel trazia uma espécie de literatura mais acessível, com uma linguagem mais regional e que estava mais próxima do dia a dia das pessoas. Não era o Português difícil de Camões. E esse é um dos motivos pelos quais eu acho importante falar da Literatura de Cordel aqui para você. 

Entender as variações de sotaques e dialetos do Brasil é essencial não apenas para entender o português falado no dia a dia, em cada lugar, mas especialmente, para colocar de uma vez por toda na cabeça, que não existe o português mais limpo, ou mais correto, ou melhor pronunciado. A própria literatura de cordel muitas vezes vai trazer uma escrita diferente do português-padrão, para enfatizar o som da palavra no dialeto local.

É melhor escrever errado a coisa certa,
do que escrever certo a coisa errada.

Patativa do Assaré

Aqui ele não es(tá) falando apenas de escrever de acordo com a sua cultura, mas também de preservar a história/identidade no que está sendo escrito, independentemente de isso ser a norma culta da língua ou não. Variações linguísticas só existem porque atendem as necessidades de comunicação de uma determinada comunidade. E não tem nada de errado ou estranho nisso. Acontece em qualquer idioma, tá bom? Então sempre que você perceber uma variação de pronúncia entre noite ou porta, pode entender como parte da língua e não exceção, ou algo errado. 

É claro que você não precisa aprender como o mesmo objeto ou a mesma coisa é chamada em diferentes regiões do Brasil, o ponto é entender que essas variações podem, sim, ocorrer, e que isso faz parte do aprendizado: ser surpreendido com palavras novas para descrever coisas que você já conhece. Tendo isso em mente, em vez de você pensar que está aprendendo uma língua difícil, você compreende que, na verdade, está aprendendo um idioma rico!

Outro bom motivo para que os cordéis fizessem sucesso além da linguagem próxima da realidade das pessoas foi justamente o tipo de história que eles contavam e o formato em que eram escritos, em forma de poesias, o que ajudava a contar as histórias de forma musicada.

Tanto no Cordel Brasileiro quanto no que era produzido na Europa, os temas variavam bastante. Muitos poetas narravam histórias populares do folclore, ou contavam a saga de personagens históricos, casos sobrenaturais, temas religiosos, além de assuntos mais rotineiros, como relacionamentos, traição, política etc. 

Aqui no Brasil, mais do que em Portugal, por exemplo, as histórias geralmente carregavam um pouquinho mais de humor. A produção de cordel no Brasil teve o seu grande momento no passado, no final do século XIX, mas até hoje ainda existem poetas que ajudam a divulgar esse tipo de literatura popular por todo o país. 

Um desses novos nomes é o poeta Bráulio Bessa, que ganhou um espaço num programa matinal da TV Brasileira e, desde então, vem ajudando a divulgar a Literatura de Cordel para as novas gerações. Matinal quer dizer algo que acontece pela manhã.

Aproveitando que boa parte das pessoas que ouvem o Fala Gringo vive nos Estados Unidos, eu trouxe um cordel do Bráulio em que ele fala das suas impressões sobre New York, ou Nova Iorque, como pronunciamos em português. 

É um cordel que fala um pouco sobre o sentimento de se encantar com uma cidade nova e muito diferente da cidade em que a gente vive, mas ainda assim não se imaginar vivendo naquele lugar. Já aconteceu com você, de estar viajando num país, ou até mesmo de morar em outra cidade, e de repente sentir falta até das coisas mais simples do lugar de onde você veio? Comigo já! 

Eu vou soltar o áudio para vocês e depois a gente analisa algumas frases e vocabulários que vão nos ajudar a entender melhor a mensagem. Chama-se, um Matuto em Nova Iorque.

My brother, sou nordestino
nascido lá no sertão.
Whisky pra mim é cana
misturada com limão.
Matuto do pé rachado,
danço forró e xaxado
e adoro cantoria.
Na minha terra é assim,
o tal do bacon é toicim
e Mary lá é Maria.

Vim bater em Nova Iorque,
conhecer outra cultura.
Vi gente de todo tipo
e prédio de toda altura.
Muita luz, badalação,
movimento, agitação,
dialeto diferente,
sorry, thank you e oqueis.
Mas não sei falar inglês
fico aqui com meu oxente.

Tô aqui na Times Square
mas prefiro o meu terreiro
onde a vida não tem pressa,
não passa assim tão ligeiro.
Aqui tem loja grã-fina,
com luzes que ilumina(m)
e tudo pra ser comprado.
Porém, lá no meu sertão
o crédito do cartão
é o caderno do fiado.

Ali tem cachorro-quente,
mas não vale uma buchada.
Hambúrguer não chega aos pés
de carne de sol torrada.
Milho assado na fogueira,
rapadura, macaxeira,
castanha feita na brasa.
Caminhei e dei um giro
e tô certo que prefiro
a rua da minha casa.

Nova Iorque é muito bela,
dá pro cabra se encantar,
porém, toda essa beleza
não consegue superar
minha cidade, meu canto,
meu pequeno Alto Santo
que eu amo e quero bem.
Sou mais um cabra da peste
e não troco o meu Nordeste
por States de ninguém.

Bráulio Bessa

Matuto é o nome que damos ao indivíduo que vive no campo, longe da cidade e que, por isso, tem um estilo de vida muito diferente do cidadão urbano. 

A primeira parte do poema, o autor traça paralelos culturais entre os dois países, mais especificamente, entre os Estados Unidos e a região Nordeste, região em que vive. 

Quando diz “Whisky para mim é cana”, que é um outro nome para cachaça; e também no verso Na minha terra é assim / o tal do bacon é toicim / e Mary lá é Maria. Toicim é uma variação da palavra Toucinho, para se referir à essa parte gordurosa da pele do porco, conhecida no mundo todo como bacon. 

No finalzinho do Cordel, Bráulio volta a trazer mais elementos da cultura nordestina, em especial da Culinária. Aqui ele fala da buchada, que é um prato em que se cozinham os orgãos da barriga do bode dentro de bolsas feitas com o próprio estômago do animal – também fala da carne de sol, do milho assado, da macaxeira, da castanha de caju e da rapadura – um doce feito a partir do caldo de cana-de-açúcar. 

Essa valorização da cultura popular dentro do texto é algo que se repete em outras obras. O cordel como literatura teve um papel fundamental para propagar hábitos culturais, histórias locais e até mesmo notícias, quando os meios de comunicação não eram tão desenvolvidos no Brasil. 

Imagine que em algumas cidades o sinal de TV e rádio ainda não tinha chegado, nem mesmo a luz elétrica, e como as pessoas podiam ficar sabendo do que estava acontecendo no mundo ou nas cidades ao redor? Com a ajuda dos cantadores e cordelistas que viajavam pelo Nordeste, as pessoas que escreviam e cantavam seus poemas nas feiras. 

O objetivo aqui do autor não foi provar que o lugar em que ele vive é melhor que Nova Iorque. Ele traz essas diferenças para mostrar o porquê de ele preferir a sua região, mas em momento nenhum ele diz qual é melhor, qual é pior. 

Nova Iorque é muito bela,
dá pro cabra se encantar,
porém toda essa beleza
não consegue superar
minha cidade, meu canto,
meu pequeno Alto Santo
que eu amo e quero bem.
Sou mais um cabra da peste
e não troco o meu Nordeste
por States de ninguém.

Cabra da Peste é uma expressão usada no Nordeste para se referir a um pessoa corajosa, valente, destemida. Então se você um dia ao Nordeste e alguém dizer que você é cabra da peste, sinta-se honrado(a).

Note que aqui ele usa muito os pronomes possessivos MINHA e MEU não só pra fortalecer a sua identidade com o lugar, mas para deixar claro que ele está falando de uma experiência pessoal.  Se você por acaso morar em Nova Iorque, não precisa ficar ofendido. Não é a intenção do autor, muito menos a minha. 

O cordel traz junto consigo outra expressão artística que é a xilogravura. Uma técnica de desenho e impressão feita de forma rústica. Desenhos são entalhados na madeira, fazendo como formas, chapas de impressão, e depois são reproduzidos nas capas desses folhetos. A xilogravura também é um símbolo artístico do Nordeste que é a nossa cara. 

Eu vou deixar na transcrição do episódio algumas imagens em xilogravura para você entender melhor essa estética. 

Outro ponto importante é lembrar que apesar de a Literatura de Cordel ter ganhado características próprias no Brasil, existem produções semelhantes em alguns países da América Hispânica como Argentina, Nicaragua, México, Colômbia, Chile e Venezuela; como o El Corrido, por exemplo. 

Para finalizar, já que estamos nesse sentimento de começo de ano, eu peguei mais um cordel do Bráulio Bessa para terminar o nosso episódio de hoje com um uma mensagem positiva para 2020. É um poema que fala sobre esperança e diz assim:

Enquanto o amor pesar mais que o mal na balança
enquanto existir pureza no olhar de uma criança
enquanto houver um abraço
há de haver esperança

Enquanto nosso perdão for mais forte que a vingança
enquanto se acreditar que quem acredita, alcança
Enquanto houver ternura há de haver esperança

Enquanto você sorrir por uma boa lembrança
enquanto você lutar com uma força que não cansa
enquanto você for forte há de haver esperança

Esperança no amanhã e no agora também
tenha pressa, é urgente, não espere por ninguém
não adianta esperança se você não faz o bem

É quando se está sozinho que o abraço tem valor
Repare, que é no frio que a gente busca o calor 
É justo onde existe ódio que tem que espalhar o amor

Não adianta assistir, não adianta observar
se você não se mexer as coisas não vão mudar
e até a esperança vai cansar de esperar


Esse foi o nono episódio do Fala Gringo, o seu podcast de Português Brasileiro.
Por hoje a gente vai ficando por aqui. Obrigado pela companhia e até o próximo. 

Links para Consulta:

Sete Mitos Sobre a Literatura de Cordel Brasileira

Breve História da Literatura de Cordel 

Perfil Braulio Bessa

Cordel: Poesia Popular característica do Nordeste


Vocabulário

peculiaridade – característica do que é peculiar, original, singular. 

lojinha – diminutivo de loja

defecar – fazer cocô, evacuar fezes do organismo

cordelistas – autores da literatura de cordel

empilhar – por em pilhas, um em cima do outro / livros empilhados

analfabetismo – estado ou condição do analfabeto, aquele que não sabe ler e escrever

sertão – (brasileirismo) – toda região pouco povoada do interior, em especial, a zona mais seca que a caatinga, ligada ao ciclo do gado e onde permanecem tradições e costumes antigos.

rachado – aquilo que apresenta racha, fenda; aberto em ferida, machucado.

forró e xaxado – ritmos musicais 

badalação – vida social ativa, divertimento. Aquilo que é agitado.

oxente – interjeição que demonstra espanto ou estranheza

terreiro – (brasileirismo) – pequeno quintal, de terra batida, diante das residências populares do interior / ou o lugar onde se os ritos dos cultos afro-brasileiros (candomblés, batuques etc.)

ligeiro – rápido

fiado – aquilo que é comprado ou vendido a crédito, para pagar depois. 

propagar – divulgar, espalhar uma informação, passar para outras pessoas e gerações. 

o porquê – o motivo

entalhado – gravado em madeira, esculpido

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