EP 10 | Para entender o Carnaval do Brasil

Olá, bem-vindo ao Fala, Gringo! Eu sou o Leni e criei esse podcast para ajudar você, estudante de português intermediário, a melhorar a compreensão da língua e conhecer melhor a cultura e sociedade brasileira. Você pode acompanhar este podcast com uma transcrição completa e gratuita. Acesse o link na descrição do episódio ou através do instagram: @portugues.com.leni.


Fala Gringo, Fala Gringo! Como estão as coisas por aí do outro lado? Talvez você não saiba, mas para muitos brasileiros, carnaval é muito mais que aquele período para fazer a festa, exagerar, beber em excesso, etc. O significado do Carnaval pode ir muito além disso. 

Pode significar uma pausa na rotina estressante, aquele momento que a gente vive se devendo, sabe? O momento de chutar o pau da barraca... Pode significar uma tradição familiar, essa coisa do patriarca ou a matriarca da família que criou um bloco há muitos anos atrás e ele continua desfilando até hoje, passando de geração para geração. Pode significar a sobrevivência de um ritmo, uma dança ou movimento cultural, que dependem da festa para não serem esquecidos no mundo globalizado, cheio de cultura genérica e sem originalidade. 

Pois é, carnaval pode significar muita coisa para muitas pessoas. E significa muito para mim também. Poucas coisas me dão tanta alegria quanto ver as ruas coloridas, pessoas fantasiadas, se perder e se encontrar no meio da multidão, cantar os frevos e as marchinhas clássicas. 

Por isso eu decidi compartilhar algumas ideias e criar esse Pequeno Guia do Carnaval Brasileiro, com o objetivo de ajudar você a entender melhor essa festa. Pelo menos, melhor do que o presidente do país que, ano passado, numa tentativa de deslegitimar o carnaval como uma festa cultural, publicou em sua conta no twitter um vídeo polêmico que mostrava dois jovens se expondo sexualmente na presença de milhares de pessoas durante um bloco carnavalesco. Segundo ele, era aquilo o que havia se tornado o carnaval brasileiro.

Aqui, vamos nos concentrar no que o Bolsonaro não conhece ou, talvez, não quis reconhecer. O carnaval que é cultura, que é tradição, que movimenta a economia, que atrai turistas e que não por acaso, é um dos maiores símbolos do país.


Antes de começar eu quero mandar um abraço bem brasileiro, bem apertado e caloroso para a Ingrid Truemper, Josué Avendaño, Marco Pugliesi e o Jorge Petruzziello e todo o pessoal que tá sempre interagindo e mandando feedback dos episódios. O apoio de vocês é muito importante. 

Agora eu tenho uma notícia para dar: este é o nosso décimo episódio e também o último desta temporada. Não, eu não vou dar uma pausa. Planejei uma temporada curtinha assim mesmo e quero avisar que a partir do próximo episódio contaremos com algumas novidades e mudanças para melhor atendê-los. Então fiquem ligados que em breve vocês saberão de tudo.

Um pouquinho de História.

Apesar de ser a festa mais popular do Brasil, o carnaval tá bem longe de ser uma invenção nossa. A comemoração vem desde a Antiguidade, celebrada por gregos, romanos e hebreus. Uma festa pagã, cheia de comidas, bebidas e muita ousadia para celebrar as colheitas. 

Como se repetiu algumas vezes na história, a Igreja Católica se apropriou da festa e incorporou o carnaval ao seu calendário religioso. A partir da Idade Média o Carnaval passou a ser o período que antecede a páscoa- que vem antes, mais conhecido como Quaresma, aquele período do ano em que os Cristãos fazem uma greve de carne vermelha durante quarenta dias. Tem algum católico que faz isso em 2020 ainda? Será?

Então conceitualmente o Carnaval virou o momento de se entregar literalmente aos prazeres da carne para, mais adiante, as pessoas ficarem um pouco mais calmas e reflexivas durante esse período de jejum. A festa se popularizou em toda a Europa e veio parar no Brasil com a chegada da colonização portuguesa.

Você que escuta o Fala Gringo com frequência deve ter pensado: acho que eu já ouvi isso antes. Sim, falar da história e cultura brasileira é, inevitavelmente, falar do processo de colonização porque foram muitos os impactos e influências trazidas por esses povos, os portugueses e os africanos. Eu também falei um pouco sobre isso no Episódio 2 | Quem são e onde vivem os índios brasileiros. Recomendo que você ouça se ainda não o fez. 

Representação do Entrudo, em aquarela do pintor francês, Jean-Baptiste Debret.

Voltando ao Carnaval, o pessoal chegou com as suas caravanas, se estabeleceu e, como você já sabe, trouxe muitos dos seus costumes, entre eles o Entrudo, que nada mais era que o Carnaval europeu. Nesse período os escravos eram liberados e, nas ruas, faziam a festa. A folia consistia em jogar jarras de água perfumada uns nos outros, pintar a cara com pó de arroz, dançar, cantar e fazer a maior bagunça. Um costume que se perpetua até hoje em algumas cidades do Brasil, conhecido como Carnaval mela-mela. Melar é um verbo que pode ser usado como sinônimo de sujar, por isso a expressão mela-mela, para falar da ação de sujar um ao outro. 

Como o Carnaval sempre foi uma festa de exageros, logo o entrudo dos escravos passou a incomodar a burguesia, que via a cidade ficar de pernas pro ar… A prática passou a ser proibida. Foi a partir daí que se iniciou o Carnaval de Salão e os famosos bailes de máscaras, uma proposta mais civilizada.

Para não me estender em detalhes, com o passar dos anos o Carnaval volta para a rua, e aí já volta com os carros alegóricos, que são aqueles carros gigantes, lotados de pessoas fantasiadas dançando samba; e também os blocos, ou bloquinhos de rua. 

Estandarte dos blocos Boi da Macuca e Pitombeira dos Quatro Cantos, em Olinda.

Bloco carnavalesco é todo conjunto de pessoas reunidas para brincar o Carnaval. É diferente da escola de samba porque não é caracterizada por um espaço físico ou apenas do ritmo samba. Bloco é o que a gente vê na rua. O que caracteriza um bloco geralmente é o tema, as cores que as pessoas usam naquele bloco para se identificarem e também o estandarte, que é como uma bandeira, carregada pelos foliões para servir como guia, assim todo mundo que se identifica ou gosta daquele bloco pode se encontrar. 

Outra característica dos blocos é o nome que eles recebem. Geralmente é algum nome divertido ou com duplo sentido, levando para uma conotação sexual. 

Folião vem de folia, que é uma palavra usada como sinônimo de festa, principalmente no contexto carnavalesco. A folia de carnaval. Então folião refere-se ao indivíduo que festeja o carnaval. 

Como eu (es)tava falando, o Carnaval continuou passando por modificações com o passar do tempo, ganhando novas referências, tanto na música quanto nas formas de se pintar e se vestir. Essas modificações foram fazendo o carnaval do Brasil ganhar essa multiculturalidade, se tornar essa coisa grande e diversa que muitos de vocês sonham em conhecer. E como estamos falando de um país do tamanho de um continente, é claro que a festa não seria celebrada da mesma forma em todas as regiões. 

Enquanto eu tô aqui falando de carnaval no Brasil, que imagens vêm à sua mente? Provavelmente os desfiles das escolas de Samba do Rio de Janeiro, né? Com os seus carros alegóricos e moças semi-nuas sambando na avenida.

Acontece que isso é apenas uma parte do nosso carnaval. A parte mais divulgada pelo país para atrair o turismo. O que é totalmente compreensível: some a linda cidade do Rio de Janeiro com toda a criatividade e exuberância dos desfiles das escolas de samba e sim, você tem o Carnaval dos sonhos de muitos turistas por aí. 

Mas nem só de Rio de Janeiro vive o Carnaval do Brasil. Também são muito conhecidas as folias de Recife e Olinda, no estado de Pernambuco e de Salvador, na Bahia. Por isso, sempre que alguém pergunta onde passar o Carnaval no Brasil, eu não me comprometo em apontar um lugar ou outro, apenas mostro algumas fotos para que a pessoa decida por si mesma, que tipo de experiência ela gostaria de viver.

Importante saber que aqui eu estou falando apenas das cidades que têm as maiores festas, seja pela quantidade de pessoas que visitam essas cidades no período, seja pela expressão cultural que elas apresentam. Como o período de Carnaval é um grande feriado no Brasil, são quatro dias, pode-se dizer que se comemora carnaval no país inteiro. Ainda que essa comemoração seja aproveitar o feriado para descansar numa praia, o que precisaria ser uma praia deserta, porque no Carnaval as pessoas adoram ir para as praias do Brasil, e elas acabam ficando lotadas e com muito barulho, é difícil descansar.

Aconselho que você abra um mapa do Brasil e juntos, vamos fazendo um passeio pelo país para conhecer e entender as principais diferenças e pontos mais marcantes do carnaval em cada uma dessas regiões.

Carnaval do Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, são as escolas de samba que se destacam. Normalmente, as escolas passam o ano inteiro se preparando para o desfile de Carnaval. Imagina, centenas de pessoas trabalhando na produção de fantasias, costurando adereços para enfeitar as cabeças e ensaiando o samba-enredo. Tudo feito com muito cuidado e dedicação, afinal, não se trata apenas de desfilar na Sapucaí, a avenida onde acontece o desfile, trata-se também de uma competição. 

Nos desfiles as escolas são avaliadas em muitos aspectos: apresentação, concepção, fantasias e, inclusive o samba enredo, ou seja, o samba que a escola compôs para apresentar. A letra pode falar de muitos assuntos, inclusive de temas sociais. É muito comum que as escolas usem o espaço e a visibilidade dos desfiles nos meios de comunicação para homenagear uma pessoa ou um acontecimento, ou simplesmente passar uma mensagem política.

Se você nunca viu uma apresentação de uma escola de samba, na transcrição do episódio eu deixei um vídeo com os melhores momentos do desfile da Mangueira. Acesse o link na transcrição do episódio. 

Além do Rio, outros estados também contam com desfiles de escolas, como São Paulo, Amazonas e Santa Catarina, por exemplo. Mas quando comparados com o Rio de Janeiro são, de fato, festas menos expressivas. 

Carnaval de Salvador

Saindo do Rio e subindo um pouco para o estado da Bahia, temos o grandioso Carnaval de Salvador, uma festa conhecida pelo Axé e os trios elétricos. 

Axé é um ritmo musical muito dançante, que surgiu na Bahia na década de 1980, da mistura de muitos outros ritmos que até então eram tocados no Carnaval, por isso é um ritmo fortemente ligado ao período. Uma cantora brasileira muito famosa desse gênero musical é a Ivete Sangalo. No carnaval de Salvador, os cantores de Axé se apresentam nos trios elétricos, que são carros de som gigantes que, ao mesmo tempo, servem como palco. Então o show começa num ponto, o carro faz um percurso e enquanto isso os foliões vão pulando atrás do trio. 

Para organizar o público de cada bloco carnavalesco e tornar os trios economicamente rentáveis foram criados os abadás, camisas identificadas com os nomes e cores de cada bloco, que dão direito aos foliões de brincarem dentro de um espaço delimitado por cordas, onde são oferecidos algumas vantagens, como controle de seguranças para evitar brigas e bebidas, por exemplo. Mas para isso tem que pagar. Quem não pode pagar, acompanha o bloco do mesmo jeito, só que mais distante do trio e fora dessa área do cordão de isolamento, no que é conhecido como Pipoca

É uma coisa meio separatista – aquilo que separa, exclui,  mas estamos falando de um dos países mais desiguais do mundo. Então, não se impressione porque perto da realidade do dia a dia isso não é nada, infelizmente.

Agora nós vamos subir um pouco mais ao Nordeste para o estado de Pernambuco, onde acontecem os carnavais de Recife e Olinda. 

Carnaval de Recife e Olinda

Aqui no Recife, por exemplo, as festas começam pelo menos um mês antes das datas oficiais, é o que chamamos de pré-carnaval. O que é ótimo porque nunca falta o que fazer no final de semana durante todo o verão. Inclusive eu tô muito feliz porque vou passar o Carnaval por aqui este ano, já que o ano passado eu estava em São Paulo e, apesar de a cidade ter um carnaval de rua que está crescendo cada vez mais, não se assemelha em absolutamente nada com o Carnaval daqui, que foi de fato o que fez eu me apaixonar por essa festa.

Um dos pontos altos do Carnaval do Recife é o Bloco Galo da Madrugada, que já entrou para o livro dos Recordes como o maior bloco do mundo em 1995.

Diferente do Rio de Janeiro, com o Samba e de Salvador, com o Axé, o ritmo do carnaval aqui é o Frevo, que também é gênero musical e dança ao mesmo tempo. Se você já ensaiou alguns passos de samba e achou difícil, precisa ver como é o frevo. São movimentos acrobáticos e que exigem muita técnica. Não, eu não sei dançar esse ritmo, não tenho preparo físico. Eu vou deixar na transcrição um vídeo para você ver do quê eu tô falando. 

Ao lado do Recife fica a cidade de Olinda, que é conhecida pelo Carnaval dos Bonecos Gigantes. Todos os anos, dezenas de bonecos representando personalidades e figuras conhecidas desfilam com os foliões subindo e descendo as conhecidas ladeiras da cidade. O mais famoso deles, o Homem da Meia Noite, é um boneco que, como o nome diz, desfila à meia-noite no sábado de Carnaval, abrindo simbolicamente as comemorações de carnaval na cidade. Digo simbolicamente porque a verdade é que se começam as festas de carnaval em Olinda ainda em dezembro.


Expressões Idiomáticas

No episódio de hoje eu usei duas expressões que talvez tenham deixado você um pouco perdido. 

A primeira foi chutar o pau da barraca, que tem o sentido de mudar o comportamento de uma forma muito radical. Imagine que você está acampando, numa barraca e alguém vai lá e dá um chute na madeira, o que acontece? A coisa cai…

Se você leva uma vida cheia de compromissos e responsabilidades, é normal que em algum momento você queira chutar o pau da barraca e desistir de tudo. Sair por aí com uma mochila nas costas ou coisas assim. Uma pessoa pode chutar o pau da barraca no trabalho e falar para o chefe que não suporta mais aquele ambiente abusivo, por exemplo. Quem nunca, né?

A segunda expressão idiomática usada foi de pernas pro ar. Eu disse que quando acontecia o Entrudo, as cidades ficavam de pernas pro ar, quer dizer, uma bagunça. É comum ouvir alguém dizendo em português: ah, minha vida está de pernas pro ar. Espero que não seja o seu caso.


Por hoje é só. Apesar do Carnaval estar a todo momento me chamando para a festa, eu prometo que vou conseguir um tempinho para gravar um episódio novo o mês que vem. 

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Não esqueça também de assinar o episódio na plataforma que você está ouvindo, assim você não perde nenhum episódio novo. 

Esse foi o Fala, Gringo, o seu podcast de Português Brasileiro. Até o próximo.


Vocabulário

marchinhas – Gênero musical de carnaval, de ritmo vivo, muito popular nos anos 20. 
pagã – aquilo que é relativo ao paganismo / ao politeísmo, que cultua vários deus.
jejum– abstinência de alimentos. Estar em jejum = ficar sem comer
caravanas – comboio, frota. Caravanas marítimas.
perpetuar – Durar eternamente / continuar por tempo indeterminado
adereços – qualquer peça usada como enfeite.
concepção – resultado do processo de criação / maneira de entender algo
rentável – que dá rendimentos, que é lucrativo
delimitar – fazer a determinação das fronteiras, colocar limites
acrobático – aquilo que tem relação com acrobacia; exercício acrobático
personalidade – pessoa famosa***, no contexto do podcast
chute – pontapé, impulso forte dado com os pés
barraca – tenda de acampamento, feita de lona e/ou madeira

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