EP 2 | Índios brasileiros: como influenciaram a nossa língua?

Fala, Gringo!  Aqui quem fala é o Leni. Bem-vindos ao nosso segundo episódio. Talvez seja a primeira vez que você está ouvindo este podcast, então antes de começar a falar sobre o nosso tema, eu gostaria de apresentar o Fala, Gringo rapidamente e dizer o motivo de ele existir. 

Este podcast foi pensado para ser um material para estudantes de português nível intermediário. Eu sei que quando a gente chega neste nível, seja em qualquer língua, há sempre dificuldades em encontrar materiais que não tenham uma linguagem tão complicada como os noticiários, mas que também não sejam aqueles diálogos bobos, que você tem a impressão de que nunca vai falar ou ouvir algo parecido na vida real.

Então a ideia é ajudar você a melhorar a compreensão do português brasileiro do dia a dia, ao mesmo tempo em que pode conhecer melhor a nossa cultura e os assuntos que estão não boca do povo. É por isso que o ritmo da locução é um pouco mais lento, para que você possa ouvir bem cada palavra. 

No meu meu Instagram, @portugues.com.leni, você encontra um link na bio para ter acesso à transcrição do episódio. Assim, você pode acompanhar tudo o que eu estou falando, além de conferir a definição das palavras que eu acho que possam ser mais difíceis, que você pode não conhecer, tá bom? 

Como eu disse,  é o nosso segundo episódio. Antes de começar, eu quero ler um mensagem que recebi de uma ouvinte, a Sarah, que escreveu um comentário sobre o podcast anterior em que falei da Xenofobia no Brasil. Ela diz assim:

“Eu escutei os seu podcast, acho que o assunto é muito interessante, e especialmente adorei o conceito de podcast para aprendizes intermediários do português. Isso é exatamente o que eu precisava para continuar o meu aprendizado agora que eu deixei o Brasil depois de um mês lá. Muito obrigada, eu mal posso esperar pelo próximo. 

Então, Sarah, aqui estamos! Obrigado pela sua companhia! Seu retorno me deixou bastante motivado.

Agora vamos para o assunto do dia? Vamos falar sobre os índios no Brasil.
Onde vivem e quais as suas influências para a nossa língua?


[Trilha canção indígena ]

Até pouco tempo aqui no Brasil, logo nos primeiros anos da escola, a gente costumava ouvir que no ano de 1500 os Portugueses descobriram o Brasil. Isso dava a ideia de que as  embarcações, quer dizer, os navios portugueses chegaram aqui e não encontraram nada mais que florestas e animais na natureza. Hoje, já se fala mais em colonização, para aos poucos diminuir essa ideia de que o Brasil era um país inabitado, vazio.  

“O Descobrimento do Brasil” – Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo (1854-1916)

Na verdade, o que chegou com as caravanas portuguesas foi a civilização. Mas já existiam sociedades de índios, com os seus próprios estilos de vida e de organização. 

De acordo com informações da Funai – A Fundação Nacional do Índio, estima-se que naquela época,  cerca de 3 milhões de índios habitavam o Brasil. Principalmente nas regiões litorâneas, ou seja, à beira mar e também de rios, o que facilitava a caça e a pesca. A FUNAI é a instituição responsável por políticas de proteção dos povos indígenas no Brasil, entre outras coisas, o registro e a demarcação das suas terras. 

Vou falar bastante a palavra “indígena” para me referir a tudo aquilo que é relacionado aos índios, tá bom? Comunidades indígenas, línguas indígenas, tradições indígenas e por aí vai. ..

Mas voltando para o início de tudo, com o passar do anos, a quantidade de índios foi diminuindo drasticamente, de forma muito rápida. Seja por extermínio, seja por doenças trazidas pelos colonizadores, e que os índios não tinham imunidade

Atualmente, a população indígena do Brasil é de cerca de 817.963 índios, segundo a última contagem do IBGE, no ano 2010. O IBGE é o instituto brasileiro responsável pelas estatísticas do país: quantidade de pessoas, taxas de desemprego, dados sobre a economia etc.

Obviamente que de 2010 para cá os números devem ter apresentado mudanças, mas esses são os dados mais atuais. Dessa população de quase 818 mil índios, a maior parte vive nas áreas rurais,  no campo, não necessariamente isolados, apesar de ainda existirem muitas tribos que não entraram em contato com a sociedade. A outra parte vive em áreas urbanas, ou seja, são aquelas pessoas que se declararam índios, devido às suas origens e etnia, mas vivem integrados à sociedade. Vestem roupas comuns, têm acesso às tecnologias e a meios de transporte, enfim, fazem tudo ou quase tudo que um típico morador de uma cidade.

Distribuição da população indígena no país – Fonte IBGE

A maior parte dos índios brasileiros está localizada na região Norte do país,  onde fica grande parte da Amazônia. Eu deixei, na descrição do episódio, um mapa que mostra bem a distribuição dessas populações em todos os estados do Brasil. Vale a pena dar uma conferida pra você ter uma noção da presença desses povos.

É engraçado que até mesmo para os brasileiros, se você pergunta: “onde você acha que vivem os índios do Brasil?”, muitos vão citar diretamente a Amazônia, sem se dar conta que há comunidades indígenas em todos os estados. 

Uma curiosidade, é que na maioria das aldeias, que é como são chamadas as comunidades indígenas, as casas já são feitas de tijolos. Mas especialmente na região Norte, muitos índios ainda constroem suas casas da forma tradicional, com madeiras e plantas.

Outra informação importante é  sobre a variedade de línguas faladas. Na última contagem do IBGE foram registradas 270!  É uma variedade linguística enorme, né? Para simplificar, essas línguas são dividas em três grupos, de acordo com a suas origens em comum. Elas são o Tupi, o Macrojê e o Aruak

[ Vinheta ]

Quando a gente pensa na vida dos índios, a primeira imagens que vem à cabeça são as danças, as tradições, a caça e a pesca. Enfim, a vida tranquila no meio das floresta. A verdade é que hoje, a situação da maioria dos índios brasileiros está bem longe dessa tranquilidade. 

Cada vez mais aumentam as pressões pela exploração das terras reconhecidas como indígenas. São regiões isoladas onde se encontram além de riquezas naturais, também riquezas minerais, como o ouro e outros minérios. Essa pressão já terminou em muitos conflitos violentos entre índios e garimpeiros, madeireiras e ruralistas, ou seja, pessoas que têm interesses financeiros nessas terras. Só no ano de 2017, 110 índios foram assassinados no Brasil. Agora há pouco, no mês de julho, um líder indígena foi assassinado brutalmente no Amapá e toda essa discussão a respeito dos conflitos com indígenas voltou à tona.

Só pra você não ficar perdido nessa definições, quando eu falo de garimpeiros, são pessoas ou empresas que fazem o garimpo, ou seja procuram/extraem minerais, pedras preciosas etc; madeireiras, como o nome já sugere, são as empresas que tiram madeira da natureza para a venda; e ruralistas é como chamamos as empresas que atuam na agropecuária, ou seja, plantando alimentos ou criando animais para o comércio. 

Voltando à situação atual desses índios, muitas vezes o desespero é tão grande que chegam a cometer suicídio, quer dizer, se matam por não terem esperança no futuro e por verem suas comunidades sendo destruídas pouco a pouco. Muitos dos povos foram expulsos de suas terras e vivem em condições desumanas, como é o caso dos Guarani, que vivem emacias improvisadas, feitas de lona plástica, à beira da estrada no Sul do país. 

Brasília – Índios do Acampamento Terra Livre fazem nova manifestação na Esplanada dos Ministérios (José Cruz/Agência Brasil)

Para piorar, o atual governo brasileiro não é nada sensível às questões indígenas e ambientais, então a tendência é que situação fique cada vez pior. Infelizmente.

Vamos fechar essa primeira parte. Agora vamos falar um pouco sobre a influência dos índios na nossa cultura. 

[Vinheta]

Olha, não são poucas, viu? Ela está na língua, na culinária, no artesanato, na medicina alternativa…

Tem muito brasileiro com nome de origem indígena: é o caso de Mayara, Iara, Janaína, Kayque, Raoni, Moacir. E não é só nome de gente não, também de ruas, edifícios e parques.  Se você já veio a São Paulo, talvez deu uma caminhada pelo Parque Ibirapuera; no Rio de Janeiro, com certeza ouviu falar do Maracanã ou da Praia de Ipanema. Todos esses são nomes que vêm das línguas indígenas, sobretudo do tupi-guarani, umas das variações mais faladas.

A maior parte do nome das plantas e dos animais no Brasil também vêm das línguas de origem indígena, a exemplo do abacaxi. Muitas pessoas acham engraçado que aqui não segue o padrão Ananás ou algo parecido, como em Portugal.

Quando os colonizadores europeus chegaram aqui, não conheciam a enorme variedade da fauna e flora brasileiras, quer dizer, as plantas e animais. Os índios é que foram apresentando e dando nome as coisas, aos animais e as frutas, como é o caso de mandioca, o caju e o tão conhecido Guaraná, muito famoso no exterior. 

Até mesmo hábitos rotineiros, como a quantidade de banhos por dia que os brasileiros tomam. Essa é uma coisa que sempre intriga  muitos estrangeiros. Por que os brasileiros tomam tantos banhos por dia? Aí está a resposta: uma herança cultural dos índios. 

Enfim, a influência dos índios é gigante no país, embora de um modo geral as pessoas tenham uma tendência a separar o que é cultura indígena e o que é cultura brasileira. 

Eu penso um pouco diferente. Penso que não existe cultura brasileira sem índio. É justamente essa grande união de referências indígenas, europeias e africanas, estas últimas herdadas dos escravos que vieram com a colonização, é tudo isso que faz o Brasil ser esse país tão rico, tão interessante e tão cultural. 

Nesse dia Internacional dos Povos indígenas essa é a reflexão que eu faço. Até que ponto, em nome do progresso, vamos tirar dos índios os seus direitos? Qual a importância dessas comunidades indígenas para que se olhe as florestas como o pulmão do país, a fonte de ar e não apenas como uma fonte de geração de renda?

Bom , por hoje a gente vai ficando por aqui. Obrigado por acompanhar até o final, isso me deixa muito feliz. Você tem alguma sugestão? Quer mandar algum recado? 

É só ir no Instagram @português.com.leni e mandar uma mensagem. Ou você pode acessar o link da página com a descrição e, no final, deixar o seu comentário. 

Eu sou o Leni, e esse foi mais um episódio do Fala, Gringo!, o seu podcast de português intermediário. 

Bye bye, salut, adiós!


Vocabulário:

Bobo – Pessoa que se comporta de modo incoerente, sem lógica; idiota. / [Popular] Sem valor ou importância; insignificante: machucado bobo.
Estar na povo – Que todo mundo, de uma certa região, está falando e comentando muito.
Colonização – Colonização é o processo pelo qual os seres humanos ocuparam novos territórios pelo mundo. Uma colonização pode ter como objetivo a habitação ou a exploração de recursos.
Inabitado – Que não é habitado: casa inabitada.
Área rural – É uma região não urbanizada, destinada a atividades da agricultura e pecuária, extrativismo, turismo rural, silvicultura ou conservação ambiental. É no espaço rural onde se produz grande parte dos alimentos consumidos no espaço urbano.
Litoral – o um termo que designa a faixa de terra junto à costa marítimo.
Demarcação – Ação ou efeito de de determinar os limites (de um terreno, de uma área) por meio de marcos, balizas, estacas: demarcação de terras.
Civilização – Civilização é o estado de cultura social, caracterizado por um relativo progresso no domínio das ciências, da religião, da política, das artes, dos meios de expressão, das técnicas econômicas e científicas, e de um grau de refinamento dos costumes.
Drasticamente – Que ocorre de forma rápida
Extermínio – Ação ou resultado de exterminar; destruição de um conjunto de indivíduos ou animais.
Imunidade – Imunidade é a resistência ou proteção contra algo, normalmente relacionada com doenças e infecções que podem atacar o organismo de um ser vivo.
Minério – mineral ou rocha que podem ser trabalhados para a extração de uma ou mais substâncias úteis economicamente.
Improvisadas – Aquilo que é feito sem cuidado, às pressas, sem nenhum planejamento.
Tijolo – Bloco de cimento ou de argila. Os tijolos são usados na construção civil, em paredes ou pisos.
Desespero – Estado de angústia e impaciência na qual se encontra uma pessoa. Desesperança com irritação
Vir/Voltar à tona – Diz-se da informação que aparece de repente e permanece no centro das atenções.
Estatística
– é um conjunto de métodos usados para se analisar dados / informações.
Aldeia – (brasileirismo) povoação habitada apenas por índios; maloca, aldeamento;
pequena comunidade.
Rotineiro – que faz parte da rotina, do dia a dia.
Herança – Aquilo que é transmitido de uma pessoa para a outra após a morte e através de gerações.

Imagem da cabeça do post: Marcello Casal JrAgência Brasil

Links

https://www.survivalbrasil.org/povos/indios-brasileiros

http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/12/fotos-mostram-luta-de-guaranis-kaiowas-por-sobrevivencia-na-beira-de-estradas.html

https://pib.socioambiental.org/pt/Quadro_Geral_dos_Povos

http://www.funai.gov.br/index.php/indios-no-brasil/quem-sao

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,lider-indigena-e-morto-a-facada-no-amapa-politicos-veem-acao-de-garimpeiros,70002942614


4 comentários em “EP 2 | Índios brasileiros: como influenciaram a nossa língua?

  1. Oi Leni! Eu realmente aprecio o seu podcast. Está me ajudando muito. Eu tenho uma pergunta rápida para você.

    “Por que os brasileiros tomam tantos banhos por dia? Aí está a resposta: uma herança cultural dos índios.”

    Onde você conseguiu essa informação? (The “works cited” behind this interesting information!)

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    1. Olá Matt! Existem muitos estudos sobre os hábitos indígenas que apontam isso.
      É uma coisa que a gente começa a ouvir falara ainda na escola. Imagino que na internet você pode encontrar alguns artigos sobre o assunto. 🙂

      Curtir

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